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Vamos conversar um pouco sobre saúde... ter ☞ um dedo de prosa. A conjunção “saúde e família” pode ter vários significados. Temos nossa família biológica, nossa família escolhida (amigos) e nossa família de animais de estimação (nossos pets queridos) que, no meu caso, são os gatos.
A palavra “pet” surgiu na Escócia e no norte da Inglaterra por volta de 1530 para descrever um animal favorito ou estimado. Não se tratando de um acrônimo (sigla) nem de uma abreviação, mas a palavra possui uma raiz etimológica ligada a termos que significam “pequeno”.
O nosso conceito de amor vem, obviamente, da família. Mas de onde vem o meu amor pela Drª. Nise da Silveira, pela saúde e pelos animais de estimação?
Nise da Silveira era filha de pai matemático e de mãe pianista e foi casada com o médico sanitarista Mário Magalhães da Silveira (todos naturais de Alagoas); o casal se uniu em 1926, enquanto estudava na Faculdade de Medicina da Bahia (onde ela conheceu meu pai). Nise e Mário não tiveram filhos e permaneceram juntos até a morte dele, em 1986.
Já no Rio de Janeiro, meu pai trabalhou com a Drª. Nise da Silveira durante anos; conheci a ilustre psiquiatra quando eu tinha cerca de oito anos, e foi amor à primeira vista. A partir de então, sempre que podia, eu acompanhava meu pai ao consultório dela, um espaço com várias estantes de tijolos aparentes que abrigavam uma vasta coleção de livros. O local ficava no mesmo prédio onde ela morava, na Rua Marquês de Abrantes, no bairro do Flamengo; sua residência propriamente dita ficava no quarto andar, e ela frequentemente me levava lá para comer bolo de chocolate com cobertura de fios de ovos.
Seu consultório, que ela chamava de “gatil”, local dos muitos livros e vários felinos belíssimos; ficava situado no quinto andar, esse segundo apartamento era dedicado exclusivamente ao seu trabalho intelectual. Servia tanto como biblioteca quanto como escritório, um lugar onde ela guardava milhares de livros, cuidava de dezenas de gatos e conduzia seus famosos grupos de estudo voltados para a psicologia do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung. Ela admirava profundamente seus gatos, compartilhando com eles um respeito mútuo e um vínculo especial, e os via como seres altivos e independentes que compartilhavam seu amor pelo silêncio e pela concentração profunda.
Mas há mais três atos nesta história que preciso contar...
O primeiro ato da história: é que meu pai conheceu minha mãe aqui na Holanda, durante uma viagem que fez com a Drª. Nise. Minha mãe, também médica (psiquiatra) e médica residente na época, também conhecia a Drª. Nise e conheceu meu pai por intermédio dela; para meu pai e minha mãe também foi amor à primeira vista.
O segundo ato desta história: é que a Drª. Nise foi madrinha de casamento dos meus pais e, anos mais tarde, me deu meu primeiro gato, mais um motivo para o meu amor por ela e pelos felinos.
A Dra. Nise via seus gatos como animais de estimação, amigos leais e confidentes. Ela imortalizou essa paixão no livro “Gatos, a emoção de lidar” (1998), no qual explora a presença dos felinos na cultura, na ciência, na arte e na literatura, ao mesmo tempo em que cunhava expressões fundamentais sobre o afeto compartilhado entre as espécies. — “Eu gostaria de ser como o gato: quando não se quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não tem papo.”
O terceiro e último ato: minha mãe me deu meu segundo gato e, por uma triste ironia do destino, ela faleceu exatamente no mesmo dia que a Drª. Nise: 30 de outubro (Nise em 1999, minha mãe em 2015). Neste mês, completarei onze anos sem a minha amada mãe e vinte e sete anos sem a minha amiga e mentora Nise da Silveira.
Mas este post não é sobre tristeza; meu pai (embora seja idoso) é saudável, tenho um casamento feliz e duas filhas maravilhosas e, agora, tenho quatro gatos. Um dia chegarei ao nível do "gatil" da minha amada e saudosa Drª. Nise.
Conviver com gatos melhora a saúde física e mental dos pacientes ao reduzir o estresse e estimular a liberação de hormônios do bem-estar, algo que aprendi na prática com minha mãe.
Estudos associam a convivência com os felinos a um menor risco de morte por problemas cardiovasculares e ataques cardíacos; acariciar um gato ajuda a reduzir a pressão arterial e a frequência cardíaca, esse contato diminui os níveis de cortisol (o hormônio do estresse) enquanto aumenta a ocitocina e a dopamina; o som do ronronar de um gato ajuda a baixar a pressão arterial e acalma o sistema nervoso; os gatos aliviam a sensação de isolamento, proporcionando conforto a idosos e pacientes que estão sozinhos; brincar com um animal de estimação reduz sintomas de depressão e ansiedade após apenas um curto período de interação; os gatos também são excelentes coterapeutas, auxiliando no tratamento de crianças com autismo e de idosos com demência.
Se você nunca teve um pet (felino), sugiro que tenha um; é uma experiência fascinante, do primeiro ao último dia. Tive muitos gatos ao longo da vida e me despedi de vários deles, mas guardo lembranças inesquecíveis de todos, inclusive dos gatinhos da minha infância.
* A Drª. Nise da Silveira (que aparece na ilustração da publicação com o gato Carlinhos — nome escolhido como uma homenagem carinhosa ao famoso psiquiatra suíço Carl Jung), fundou o Museu de Imagens do Inconsciente em 1952 e a clínica terapêutica independente Casa das Palmeiras em 1956; instituição que funciona no Rio de Janeiro como um centro de reabilitação psiquiátrica em regime aberto (externato).
Saúde a todos! — Drª. Jéssica Mayra
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